Aspectos do segmento lateral pós-vocálico do Português sob a influência do Polonês como língua de imigração

Aline Rosinski, Giovana Ferreira-Gonçalves

Resumo


Neste estudo, objetiva-se descrever aspectos da consoante líquida lateral /l/ do Português Brasileiro no falar de comunidade caracterizada pelo contato entre o Português e o Polonês como língua de imigração. Busca-se observar se a utilização da língua de imigração reflete-se nas características do segmento analisado. Altenhofen e Margotti (2011) apontam que comunidades localizadas em regiões rurais e sob influência de línguas de imigração, principalmente na região sul do Brasil, como a aqui analisada, costumam apresentar uma maior conservação da lateral em posição pós-vocálica, isto é, em produções desses grupos, é menos visível o processo de vocalização do segmento. Considera-se, portanto, a possibilidade de haver, para os sujeitos que utilizam a língua de imigração, produções alveolares – ou menos velarizadas –, e para falantes apenas de Português, produções mais velarizadas, aproximando-se de uma produção vocalizada de /l/. Caracterizando as variantes acusticamente, identifica-se, para produções mais velarizadas, valores mais baixos para o segundo formante; de forma contrária, para produções menos velarizadas de /l/, haverá o aumento de F2 (RECASENS, 1995; 2004). Os dados analisados foram produzidos em dois contextos de fala, sendo eles fala espontânea e fala controlada por instrumento de nomeação de imagens. Para a descrição, produções orais do segmento lateral são analisadas acusticamente, tendo seus valores formânticos – F1 e F2 e a diferença entre eles – extraídos. Os resultados obtidos pela análise acústica indicaram uma distinção não categórica entre as produções dos sujeitos, as quais apresentaram diferentes níveis de velarização. Para os sujeitos bilíngues, contextos de fala espontânea propiciaram produção de /l/ com valores mais altos para F2, isto é, menor nível de velarização, aproximando-se da caracterização para o segmento produzido na língua de imigração, também menos velarizado ou alveolar. Identifica-se, assim, influência do uso da língua de imigração e do contexto de fala na caracterização de /l/.


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